Mais uma vez, depois da experiência com “O amor nos tempos do ouro”, romance histórico ambientado no Brasil Colônia em plena corrida pelo ouro, resolvi me aventurar no passado do nosso país. Agora minha heroína é uma africana, arrancada da África quando pequena e forçada a viver todos os horrores inerentes ao regime de escravidão.

Assim como no livro um, para escrever esta história, que se passa no ano de 1737, tive que recorrer a muitos meses de pesquisas. Percebi que meus conhecimentos sobre a História do Brasil — um pouco melhores do que quando me aventurei nessa área da primeira vez — ainda eram insuficientes para compor este enredo, tão superficiais que em algumas ocasiões me peguei admirada.

Qual foi minha surpresa ao entrar no mundo dos povos africanos trazidos ao Brasil! Quantas culturas, quantas crenças! A pluralidade é tamanha que chega a ser impossível usar apenas o adjetivo “africanos” para se referir aos costumes daqueles que trouxeram inúmeros pedaços da África para o Brasil.

Como minha ideia original era construir um enredo baseado em ficção, mas sustentado em fatos do passado de nosso país, precisei assimilar muita informação antes de me lançar nessa empreitada. E o processo de aprendizado tem sido maravilhoso. Percebi que a falta de interesse pela história do nascimento do Brasil se deve a um alarmante desconhecimento, porque, à medida que vamos desvendando o passado, ele se apresenta fantástico, arrebatador.

Graças a uma bibliografia diversa — dessa vez, o livro “O negro e o garimpo em Minas Gerais”, de Aires da Mata Machado Filho, foi o norte principal do processo de construção deste romance —, pude ir modelando meu texto, guiada pela beleza que é o aprendizado.

Nem por isso, eu me isentarei de possíveis lapsos. Não sou historiadora, apenas uma apaixonada pela História. Qualquer incoerência com os fatos originais é de minha total responsabilidade.

Peço que sejam benevolentes com minhas licenças poética. Em algumas passagens, permiti-me acrescentar um pouco de fantasia à realidade.

Quanto à linguagem empregada, preciso esclarecer alguns pontos:

  • Até 1759, quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, a língua oficial falada por aqui era o nheengatu, ou língua-geral, uma mescla do Português com dialetos indígenas. Obviamente, não seria possível adotar essa linguagem nos diálogos presentes nesta história, por ser muito diferente da que estamos habituados a usar hoje em dia.
  • Optei pelo Português parecido com o de Portugal para os personagens de origem lusitana e por uma linguagem mais variada para os escravos e homens da terra.
  • A narração, feita em terceira pessoa, foi trabalhada num Português formal, apesar de mais condizente com a atualidade.
  • O uso de termos pejorativos para designar os africanos contrabandeados para o Brasil foi necessário a fim de garantir o realismo da história. Mas deixo claro que odiei cada vez que precisei escrevê-los, pois considero-os preconceituosos e cruéis, a essência do racismo, infelizmente presente até hoje neste país. Jamais o faria em qualquer outra situação. A todos que sofreram e ainda penam com o preconceito, meu sincero respeito.

Malikah é, até agora, a protagonista mais visceral com quem tive a honra de conviver ao longo de quase sete meses. Ela representa, do meu ponto de vista, a luta dos excluídos, de ontem e do presente, pela igualdade de tratamento, pelo respeito, pela tolerância. Já Henrique, bem, acredito que está longe de ter o estereótipo dos mocinhos dos romances de época. Mas deixarei a análise para vocês, leitores.

Escrever esta história foi novamente uma experiência reveladora para mim. Sei que ainda tenho muito a aprender, por isso me atreverei a seguir nosso passado por muitos e muitos anos ainda.